"Como posso aceitar essa felicidade, quando ela vem acompanhada de um lado tão sombrio - um isolamento acachapante, uma insegurança corrosiva, um ressentimento insidioso e, é claro, a completa desintegração do meu ser que inevitavelmente acontece quando ele pára de dar e começa a levar embora." (Elizabeth Gilbert)

Na Estrada


O dia não estava nublado, pelo contrário, não havia uma nuvem sequer. O céu estava amarelo por inteiro. Você não estava envolto por neblina, eu o via em alta definição. Você estava de costas. De costas pra quem quer que fosse e de frente para aqueles que se enganavam pegando a mesma estrada que você, achando que estavam cortando caminho e andavam por um atalho.

À primeira vista a estrada era linda, toda arborizada, envolta pelo verde. Mas era só olhar com mais atenção para perceber o frio e a melancolia que reinavam nas sombras, sob a copa das árvores. Ninguém me contou ou soprou no meu ouvido, muito menos supus. Eu vivi. Sentada encolhida no acostamento, senti o vento me dilacerar e rachar os lábios.

Jamais esperei andarmos de braços-dados e transformar a estrada em mão-única. Mas confesso que fiquei surpresa ao ver que você sequer diminuiu o passo enquanto eu amarrava meus cadarços para não tropeçar. Nem voltou para o meu lado depois que tive que subir a calçada para desviar dos buracos.

Fingindo não notar sua ausência fiquei a observar os pássaros; recostada no tronco áspero que arranhava-me as costas, eu tentava a todo custo disfarçar: estava perdida. Rezava baixinho para você virar à primeira direita, dar a volta completa no quarteirão e me notar ali embaixo.

Sempre soube que andavas por manguezais, precisavas das duas mãos para escalar paredões rochosos, escorregavas em lamaçais e nadavas quilômetros em mar-aberto para não deixar rastros. Nunca questionei suas escolhas, mas acho que sabes que adoraria te acompanhar em seus caminhos alternativos. Porém, a estrada é estreita e você logo se posicionou na frente, ditando o ritmo.

Me restou seguir as placas e a poeira de seus passos. Me sobrou a sensação de cansaço, respiração ofegante e joelhos doloridos. E a certeza de que, definitivamente, a rua cheia de árvores que entrei não era um atalho, mas uma transversal que se tornou uma avenida principal cheia de curvas, me fazendo sentir como se andasse em círculos. E enquanto eu não largasse a sua mão escorregadia de uma vez por todas, eu não iria sair daquele labirinto no qual você por anos, se dedicou para construir a sua volta.

Olhando pro chão

O silêncio diz muitas palavras. Os olhos, mais ainda. Mas até quando vou ficar esperando pelas tuas palavras, pelos teus sorrisos, pelo seu abraço? Porque eu sempre estive te olhando, esperando nossos olhares se cruzarem pra então eu poder identificar um pouquinho dessas suas palavras aí escondidas. Você era paradoxal: objetivo e enrolador. Sabia direitinho quando desviar e quando olhar fixamente, entrando pela alma, driblando a razão até chegar no coração. Você era profissional, todos já sabiam. Assim como eu não era páreo para você. Mas dessa vez fui eu quem não quis ouvir, quem fez questão de desviar de todos os olhares de repreensão. Trabalho árduo. Até me sentia confusa meio a tantos intrusos na nossa história. Porém, quando fechava os olhos antes de dormir ou enquanto a água caía no rosto, era difícil sorrir. Era difícil conviver com a incerteza, com sua maneira inclassificável de sentir. E com minhas incontáveis tentativas em vão de te entender. Talvez eu tivesse medo de admitir que você apenas não sentia. Por isso, eu não fechava os olhos. Por mais que as pálpebras pesassem, eu fazia questão de não perder de vista os pés que fui obrigada a prender no chão. E agora me forço a andar, virando o rosto para desviar o olhar dos seus passos, mesmo vendo de canto de olho que eles vêm e vão na minha direção.