domingo, 25 de dezembro de 2011

Do que não se divide.

O Sigur Rós arranha os ouvidos enquanto tua cicatriz – aceitação da existência essencial para a cura – ressoa na lembrança. Os discursos viciados que como em loop estragam meus textos com a mesmice da insistência em migalhas de possibilidade. Os membros que representavam minha força; tua ausência refletida no chão; minha coragem em confronto com abismos; minha paixão nos sustentando em qualquer imensidão.

É natal e anos já completaram desde que você se foi. Desde que fui obrigada a arrancar tuas raízes sem estruturas, do meu amor. E quem encerra ciclos carrega nos novos sempre o peso da responsabilidade dos fins. Mais difícil do que um dia foi seguir, é hoje sustentar; não minto. É o esforço de ainda movimentar a lembrança, obrigada a resgatar a dor das tuas opções, pra amenizar a decisão.

A falta de merecimento que de jeito nenhum eu deixava vencer o orgulho e transbordar as barreiras, e finalmente verbalizar. Aceitar seu peso seria uma implicação conseqüente, que como saco furado, dei todo meu silêncio para não carregar.

Pra restar no presente você como passado, um fog poético nas defesas mentais e versos tortos escoando o emocional. De um jeito tão contraditório você me empurrou para onde sempre disse que iria acontecer: a dor, a música, o cigarro e tua solidão.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Casa de Areia

Uma rachadura trêmula refém da falta de sono com a angústia do dia lhe transformar em cacos. As incertezas que amedrontam o peito e previnem do pior. Sem saber que o pior mesmo é te esperar, pra quando for. É o medo de voltar pro mesmo lugar, e dessa vez o vazio ser mais frio. Porque a esperança de você me esquentava os pensamentos. E distrair a rotina era o melhor que a sua ausência física podia fazer.

E sempre que chego nesse ponto de exposição, me pergunto se era mesmo pra ser assim. Que tipo de aprendizado é sempre morrer na praia? Que outra postura deveria ter eu, então, além de lutar até o fim? Até onde a intensidade larga a mão do desejo e ensina que o meu limite é aqui, na areia? E o mar que me resta é só a água salgada do pranto. Que quando cansa, sobram só os pensamentos onde se possa velejar.

Se eu cavar, acho que posso encontrar debaixo de toneladas de grãos, a corrente que prende meu pé ao chão. Mas todas as vezes, eu podia jurar que era alguém o responsável por esse tranco enquanto eu corria, que de súbito me derrubava, engasgava e queimava meu rosto no atrito do mesmo fim.

sábado, 2 de julho de 2011

Moldura

Ele cada vez mais sensível

Se diluindo nas melodias

Se sustentando no acolchoado

Correndo atrás do amor rejeitado

Sempre atrasado

Pro que é seu.


E enquanto corremos atrás

Nos encontramos

No vazio pra onde fugimos

E fingimos que nos amamos.


Papel superficial

Amor latente

Na necessidade serena.


Essas formas

Em que nos transformamos

Esses buracos

Que diariamente tapamos.


Modulável

Te encontro

Em todos os braços esquivos dessa esquina

Em qualquer abraço dessa vida.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Para Carol

Vem lento como quem empurra pra adiante, porque sabe que inundará de qualquer forma. A gente pula os detalhes do dia de ida dela, afinal, o choro era óbvio, mas não convinha confrontá-lo com todo seu êxtase e frio na barriga que dá quando se tem um horizonte completamente novo pela frente.

E a cada dia que passa, apenas reafirmamos a saudade que aperta diariamente por aqui. Os detalhes tão inconfundíveis e só dela. A recepção com as pernas que num susto cruzam a cintura e grita no ouvido a felicidade de te ver: “sua piranha, aonde você tava???”. O atraso de sempre que perdoamos quando ela chega toda estilosinha, se aproximando com os passinhos abertos, afirmando que elegância não é questão de etiqueta. E no fim a gente repara que sentimos falta até do seu arroto - que tanto reprimíamos – cortando o silêncio, mas que um dia nos valeu uma cerveja.

Os cinemas não são os mesmos, afinal, não tem mais shhh’s ciumentos da Tatiana nos mandando calar a boca, enquanto fazendo mais barulho que nossos comentários, ela sacode o pacote de pipoca tentando em vão fazer o sal pegar o gosto.

Agora não há mais os dentes que trincam com o rascante do vinho e temos menos uma rodada de vodca em pé no Baixo Gávea. E mais velhas nos sentimos, porque agora também quase não vamos mais ao Baixo Gávea. Não tem mais Free vermelho pra dividir, não tem mais preguiça de subir ladeira de carro, não tem mais beijo sem obrigação de ligar no dia seguinte. Mas toda nossa falta se acalma quando pensamos que a felicidade dela por lá é proporcional ao vazio que deixou por aqui.



domingo, 29 de maio de 2011

Linha de corte

Porque porra, eu não agüento mais falar de silêncio, falar pra encobrir o silêncio que você deixa toda vez que vai embora. E vira as costas e não tem mais último-olhar-recíproco-por-cima-do-ombro. Do tipo, eu sei, eu também vou ficar pensando em você antes de dormir. Não suficiente, vou pensar em você também de manhã, nos primeiros pensamentos que ressurgem com o banho. Não, não tem nada disso mais uma vez, e quantas vezes mais?, e eu vou fazer isto tudo mesmo que sozinha, porque se fosse controlável eu não estaria aqui reclamando pela milésima vez da tua ausência.

Fico pensando quão doce toda essa dor chega até você, em forma de paixão aveludada. Não interprete pela minha voz, que não sai. Nem pela melodia sutil que lhe presenteia refrãos. A vida é muito mais amarga do que nos é conveniente enxergar. Mas me afogo nos clichês quando vejo você transformar toda essa sujeira em cor. Em brilho nos olhos quando desço a rua. Em sorriso constante enquanto corre a paisagem. Em boca vermelha quando sinto saudade.

Imagino a tua ida definitiva e me agarro no conforto de ser só mais uma dentre as milhões de suposições. Imagino você ao lado durante todo o dia e finjo que não me importo se a noite não acabar assim. Conheço a linha tênue entre dividir todos os pensamentos e o medo da inconveniência que puxa os pés pra trás e egocentriza esse ‘nós’ só pra mim. Puta solidão egoísta. Puta medo de arriscar no que já não se faz certo. Ou puta desconforto de aceitar que sou eu a tola mesmo, que estou aqui sempre e que está em suas mãos toda a decisão de não me escolher pra si.

Enquanto do lado de cá, sussurro na cama vazia que sou sempre de ti. E você não estar ali no abrir de olhos esvai todos os pronomes possessivos que cabiam naquela língua que lembra o rouco ao arranhar a garganta. Que lembra amor ao estraçalhar o fôlego.

Eu confesso, nunca vi assim. De perder o foco, e voltar praí. Em não conter o querer você, mesmo sabendo tudo o que vem junto com seus dedos frios. O pulso fino que entende a minha força que se confronta com a delicadeza com que seguro e esquento a sua mão. O abraço apertado que nos encaixa de qualquer jeito e que pra nós tanto faz, porque eu estava mesmo há menos de um dia com saudade.

E lá se vão três ou quatro uísques, e lá vou eu me agasalhar inteira pra não largar tudo e ir me acolher nos elogios que me derretem com seu gelo. A partir de então eu entendo tudo, quando depois de toda nossa embriaguez de amor intensa você se vai cambaleando atrás de chão e eu firme com as mãos na cadeira e os pés no céu, o sorriso em vão, vidrando apenas o copo na mesa e o conteúdo no fim.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Coleção

Prendo o amor enquanto você escorre por entre os dedos. Costumava ser ao contrário no tempo da imaginação. Porém, voltamos sempre ao mesmo ponto. Onde todos os elogios rasgados a mim não merecem você, e passamos a desconfiar dos elogios. Olho torto cada um proferido, sentindo o peso no ego e nos meus pés que agora já pressupõe a distância. A sua futura distância. E então vemos confrontado num único momento o sorriso e a ausência, denunciando o choro atrasado.

O delay da felicidade que mantém em pé a esperança, e que no fundo boicota a certeza de que você vai, de uma forma ou de outra. As lágrimas então são recepcionadas com o “já sabia” e a gente finge que não queria que tudo fosse ao contrário, do jeito certo. Do jeito que faz bem, que abre o peito, estende as mãos e ganha páginas. Enquanto isso, só ganhamos parágrafos e uma coleção de sujeitos-coringa.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

São Paulo, 01 de maio de 2011

Querida B.,

Te escrevo já da volta, juntamente com a aceitação, minha única e última opção. Levo a incerteza nos pés, aqueles que tateiam o silêncio. Daqui do turbilhão, vejo ficando pra trás o frio apaixonante, enquanto me aproximo do cinza sem as mãos que dividiam o peso.

Espero que tenha se sentido confortável no seu espaço, enquanto eu evitava a invasão observando da varanda sua estabilidade instável através dos sorrisos confiados à insegurança. Sou interrompida pela constatação da inutilidade de questionar a força das turbinas quando já me encontro inalcançável ao chão. E lembro do quão descabido é simular as diversas hipóteses, quando você é inacessível a todas elas.

De qualquer forma, é sempre bom estar com você, mesmo que cada vez mais distante. Seguimos, confiando apenas na certeza do pouso.

Beijo grande.

21:20