É agonizantemente irritante não ter opção e a voz só sair pelas palavras. Os gritos não vêm do fundo da garganta, rasgando. Nem do coração - de onde deveriam sair. Acabam sendo cuspidos apenas os gritos mudos e superficiais da raiva, que mantêm o olho embaçado, escorrendo algumas letras pelo rosto, encharcando o pescoço de parágrafos que nem são lidos ao serem enxugados.
Nunca me deparei com a situação de não ter saída. Pela primeira vez vivo isso tão intensamente que me tornei prisioneira dos meus próprios obstáculos. E a raiva que trinca meus dentes, faz eu me alimentar das sobrancelhas cerradas e urgentes e de todo este ciclo exasperado e mudo, que parece não ter fim.
Calabouço
Feitiço contra o feiticeiro
E é isso que me fere. Ser e agir como você me leva a entender o exato significado de seus atos. Reconheço-os, observo-os, e na maioria das vezes, protagonizo-os. A menina a qual você entitula falar sobre o "espírito livre", compartilha, involuntariamente, das mesmas palavras que você. E por hora sinto meu veneno, tantas outras vezes jogados por aí afora, percorrer todo meu corpo, me queimar e aguçar os sentidos.
Sentido?
"Só depois é que eu ia entender: o que parece falta de sentido - é o sentido. Todo momento de "falta de sentido" é exatamente a assustadora certeza de que ali há sentido, e que não somente eu não alcanço, como eu não quero porque não tenho garantias." (Clarisse Lispector - a paixão segundo G.H.)
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