La Question

Eu não sei o que você pode ser
Eu não sei o que você espera
Eu procuro sempre conhecê-lo
E o teu silêncio perturba o meu silêncio
Eu não sei de onde vem a mentira
Será da sua voz que se cala?
Os mundos onde mergulho contra a minha vontade
São como um túnel que me assusta
Da tua distância até a minha
Nos perdemos frequentemente
E procurar compreendê-lo
É como correr atrás do vento
Eu não sei porque continuo
Dentro de um mar onde me afogo
Eu não sei porque continuo
Nesse ar que me asfixia.
Você é o sangue que escorre de mim
Você é o fogo que me queima
Você é minha pergunta sem resposta
Meu grito mudo e o meu silêncio...

A graça da vida

- Seu merda, seu puto!!! – gritava ela enquanto o estapeava e o empurrava para fora do sofá, para fora daquele apartamento, para fora daquele mundo são em que ele se mantinha. Empurrava-o para a histeria, para que eles pudessem gritar juntos e formar um “nós” que fugisse do clichê da água-com-açúcar, com seus timbres roucos que ressoariam pelos metros cúbicos estreitos e arranhariam-lhes a garganta.

Mas ele era irritantemente casual. E quando se levantou decidido, não foi para jogar palavras doídas, tirando o chão e a fazendo chorar por dias trancada. Foi para lhe pegar com força os cabelos da nuca, dando-lhe um beijo histérico, jogando-lhe no sofá e arrancando-lhe a roupa com uma raiva e gritos mudos.

“Seu merda, seu puto.” Era o que ela repetiria no dia seguinte. Com o sentido diferente, foi o que ela sussurrou no ouvido dele quando eles acordaram devido à claridade que tomava o ambiente horas depois. Ele era um escroto por deixá-la o amar. Ela era uma escrota por não deixá-lo resistir.

Vai embora, sem despedidas, sem deixar rastros ou dar as caras novamente, era tudo o que ela não queria. Era isso que a fazia acordar suando frio todos os dias. E era justamente tudo o que ela precisava. Ela reaprenderia o significado de sanidade, distração, sobriedade, independência emocional.

Então, qual seria a graça da vida? Que utilidade teriam as borboletas se não fossem para fazer cócegas no estômago? Que função teriam as palavras senão indispensáveis coadjuvantes?

Ele sorriu para ela enquanto reparava nos olhos borrados da noite anterior. Ela deixou escapar um sorriso ao pensar que não estava se sentindo arrependida por acordar com ele, afinal, foi tudo previsto. Ele se levantou, colocou a calça, vestiu a blusa listrada, e sem falar nada se foi, batendo delicadamente a porta atrás dele. Ela então se espreguiçou meio a risinhos realizados. Até porque ele ia voltar. Ele sempre voltava.