A Culpada


Essa voz doce. Quem é que tem coragem de amargurar, de torná-la rouca? Esses olhos mel. Me diz, quem é que tem coragem de apresentá-los a escuridão? Seguro frouxa a tua mão. Não quero te trazer as certezas se eu bem sei que sou eu a mais provável de te derrubar. Não te prometo o céu, não te prometo as estrelas, nem o olhar apaixonado das revistas. Mas lhe ofereço eu, inteira. Com todas as cicatrizes e arranhões, e aquele sorriso que você tanto gosta.

E pra você isso basta. Se delicia em descobrir os versos, os acordes e as melodias por trás dos tropeços. Tão humilde, desvenda lentamente. Tão bonito ver a cena de fora. Você desenhando com os dedos nas minhas costas. O olhar bobo apaixonado pelas minhas linhas. E eu tensa, com o coração rígido, por simplesmente já prever tudo: o céu cinza, a música dolorida, você no chão e eu em pé, com as mãos cheias de sangue, acusando-me de todas as suas novas feridas.

Rebobine, por favor



O silêncio toma a casa. O que ecoa no fundo é a melodia que não sai da cabeça. E o que perfura a mente são todas a possibilidades de caminhos de chegar até aqui. Porque o fim sempre soubemos: é o mesmo. A única certeza que nos trouxe ao início foi o final.
E quão suicida lhe parece já sofrer no começo? Já entrar chorando. Antes mesmo do amor, conhecer a agonia e o peso que é sustentar por nós dois. Acreditar por nós dois. Sonhar, ainda que de olhos fechados, por nós dois.
Você já terminou antes de começar, já chorou antes de sorrir, já gritou antes de sussurrar. O ‘eu’ e ‘você’ nunca foi cogitado se transformar em nós. Abrir mão da individualidade não era uma opção, era pré-requisito. Um tchau antes do oi. Um cigarro antes do sexo.
Não quis lhe contrariar. Entreguei as armas antes de muni-las. Me despedi antes de ter o prazer em conhecê-lo. E ainda assim, o fim durou. Separados, regredimos para o meio, onde cada um dá um passo pra trás e encontra seu respectivo alguém. Durante esse longo meio, entre cochilos e desesperanças, aguardamos lentamente o backward. Só esperamos não demorar muito até alcançarmos, enfim, nosso merecido início.