Linha de corte
Coleção
Prendo o amor enquanto você escorre por entre os dedos. Costumava ser ao contrário no tempo da imaginação. Porém, voltamos sempre ao mesmo ponto. Onde todos os elogios rasgados a mim não merecem você, e passamos a desconfiar dos elogios. Olho torto cada um proferido, sentindo o peso no ego e nos meus pés que agora já pressupõe a distância. A sua futura distância. E então vemos confrontado num único momento o sorriso e a ausência, denunciando o choro atrasado.
O delay da felicidade que mantém em pé a esperança, e que no fundo boicota a certeza de que você vai, de uma forma ou de outra. As lágrimas então são recepcionadas com o “já sabia” e a gente finge que não queria que tudo fosse ao contrário, do jeito certo. Do jeito que faz bem, que abre o peito, estende as mãos e ganha páginas. Enquanto isso, só ganhamos parágrafos e uma coleção de sujeitos-coringa.
São Paulo, 01 de maio de 2011
Querida B.,
Te escrevo já da volta, juntamente com a aceitação, minha única e última opção. Levo a incerteza nos pés, aqueles que tateiam o silêncio. Daqui do turbilhão, vejo ficando pra trás o frio apaixonante, enquanto me aproximo do cinza sem as mãos que dividiam o peso.
Espero que tenha se sentido confortável no seu espaço, enquanto eu evitava a invasão observando da varanda sua estabilidade instável através dos sorrisos confiados à insegurança. Sou interrompida pela constatação da inutilidade de questionar a força das turbinas quando já me encontro inalcançável ao chão. E lembro do quão descabido é simular as diversas hipóteses, quando você é inacessível a todas elas.
De qualquer forma, é sempre bom estar com você, mesmo que cada vez mais distante. Seguimos, confiando apenas na certeza do pouso.
Beijo grande.
21:20