More than us


Só existe uma coisa maior do que nós: a falta. A tua ausência. E então, me diz, o que eu faço com todas essas palavras, com todo esse espaço imenso que é teu por direito, e que você usa a chave para fechar a porta? O violão para silenciar. O que eu faço com todos esses pedaços que explodem internamente? E mais do que tudo isso, o que eu faço com você?

Às vezes o tempo não parece ser suficiente. A intensidade parece não ter teto. Só sabemos apreciar o céu. Nos encontramos lá. Com uma lua inteira como abrigo. Até que se descobre que aquela linda luz, é na verdade apenas a luz fria e incandescente de um táxi numa manhã de domingo.

Esconderijo

E lá vou eu de novo. Obrigar a me contentar com as metades, com as superfícies. Engolir tudo o que é imenso e deveria ser entregue a todos os fins de tarde. A você, a favor do sol. É tão difícil comprimir todo o amor e reduzi-lo a palavras reféns a um registro histórico. Sufocá-lo num calabouço de pontos e vírgulas. E, aos poucos, vou me sufocando também. Vou apertando a garganta e, lentamente, perdendo o ar. Os músculos viciam em ficar sempre enrijecidos, segurando todo o peso. O sol frio, os pêlos arrepiados. E o coração ali atrás, a cada minuto mais marcado com laços, cordas e correntes que o apertam pra ele ficar ali, quietinho, escondido atrás de todos os nós expostos. Escondido de nós.